Silêncio de Trump sobre vitória de Lula afeta relação Brasil-EUA

Casa Branca não reconheceu publicamente a vitória de Lula até a manhã desta segunda-feira, o que especialistas veem como frustração política.

Vetor Geopolítico2 min de leituraMundo

A Casa Branca não havia reconhecido publicamente, até o começo da manhã desta segunda-feira (26/10), a vitória de Lula nas eleições presidenciais brasileiras, diferentemente do que ocorreu em pleitos anteriores. O resultado foi proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral às 21h08 do domingo, após a apuração de 100% das urnas, com Lula obtendo 64 milhões de votos (51,79% dos válidos) contra 59 milhões de Flávio Bolsonaro (48,21%). O silêncio do presidente americano, Donald Trump, contrasta com a rapidez de Washington em eleições passadas e com a reação de vários líderes estrangeiros, inclusive governantes de direita da América Latina, que já cumprimentaram o petista.

Uma tradição interrompida

Em 2002, 2014, 2018 e 2022, Washington reconheceu o vencedor da eleição brasileira com celeridade. Em 2022, Joe Biden parabenizou Lula antes mesmo de Jair Bolsonaro admitir formalmente a derrota. Em 2018, Trump ligou para Bolsonaro na noite do segundo turno. Em 2014, Barack Obama felicitou Dilma Rousseff no dia seguinte à votação, e, em 2002, George W. Bush telefonou a Lula cerca de um dia após o pleito.

Para Christopher Sabatini, pesquisador sênior para América Latina do centro de estudos Chatham House, em Londres, a demora é significativa. “Ele deveria ter sido o primeiro”, afirmou. Segundo ele, o fato de outros países correrem para reconhecer o resultado pressiona a Casa Branca e envia um sinal claro a Flávio Bolsonaro.

Frustração política e aliados regionais

Especialistas ouvidos avaliam que a demora de Trump pode refletir frustração política. Desde a volta do americano à Casa Branca, uma série de presidentes de direita ou próximos a ele foram eleitos na região, e a vitória de Lula interrompe essa sequência e frustra a expectativa de alinhamento regional atribuída a Washington.

Sabatini lembra que Trump recebeu os filhos de Bolsonaro e que o Departamento de Estado designou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas em 28 de maio, um dia após Flávio e Eduardo Bolsonaro se reunirem com o presidente na Casa Branca. Segundo o pesquisador, Trump chegou a se gabar de ter levado nove presidentes ao poder na América Latina e imaginava que este seria o décimo e o maior prêmio.

O que muda para o Brasil

Anthony Pereira, diretor executivo do Centro para Estudos Latino-Americanos da Universidade Tulane, nos EUA, diz que Washington esperava uma aproximação do Brasil com a agenda de Trump, incluindo adesão ao Escudo das Américas e negociação sobre mineração crítica. A vitória de Lula frustra essa expectativa de alinhamento.

O próximo passo depende de como o novo governo brasileiro articulará sua relação com Washington diante de uma Casa Branca que, até aqui, não se pronunciou oficialmente sobre o resultado proclamado pelo TSE.

Por que importa para o Brasil

O silêncio de Washington em relação à vitória de Lula indica que a relação Brasil-EUA pode começar sob tensão, o que afeta diretamente a negociação de tarifas comerciais e acordos bilaterais de que dependem exportadores brasileiros. Sem um reconhecimento rápido, o novo governo tende a encontrar mais resistência em temas de interesse do Brasil, como comércio e cooperação regional. A demora também sinaliza que o alinhamento automático entre os dois países, observado em pleitos anteriores, não está garantido para os próximos anos.

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