Quênia aposta em refinaria da Dangote para virar polo industrial

Quênia planeja usar refinaria da Dangote para criar polo petroquímico e industrial, enquanto a África Oriental carece de capacidade manufatureira.

Vetor Geopolítico3 min de leituraComércio

O Quênia avalia usar a proposta refinaria da Dangote para transformar o país em um polo petroquímico e industrial, segundo declarou o secretário principal de Indústria, Eusebius Juma Mukhwana. O projeto, defendido como forma de romper o modelo econômico em que países africanos exportam matérias-primas e importam produtos acabados, sinaliza uma tentativa de diversificar a base produtiva de uma região que hoje carece de capacidade manufatureira. Para o Brasil, a iniciativa reforça a tendência de expansão do comércio com a África Oriental, mercado que vem atraindo investimentos industriais de vários países.

Refinaria como âncora de um ecossistema

Mukhwana afirmou que a refinaria da Dangote pode estimular a produção de fertilizantes, plásticos, produtos químicos industriais e componentes automotivos. A ideia é que o empreendimento não se limite ao processamento de petróleo, mas gere demanda por siderurgia, bombas, válvulas, manutenção de máquinas, transporte e serviços de engenharia.

“Um refinaria produz combustível. Um ecossistema industrial produz uma economia”, defendeu o secretário, ao citar o exemplo de Cingapura como modelo de prosperidade construída sobre manufatura, portos eficientes e zonas industriais.

Ele ressalvou, porém, que as indústrias não surgirão automaticamente: muitas exigirão novas plantas petroquímicas, tecnologia, financiamento, insumos adequados e mercados confiáveis, além de priorizar pequenas e médias empresas quenianas.

Investimento chinês acelera fábricas na África Oriental

O plano queniano se insere em um movimento mais amplo de industrialização da região. Empresas chinesas vêm ampliando a produção na África, impulsionadas pela capacidade ociosa e pela queda de lucros no mercado doméstico. Dados do Ministério do Comércio chinês projetam quase US$ 8 bilhões em investimento direto na manufatura africana em 2025, alta de mais de 50% ante 2016.

No Quênia, mais de 350 empresas chinesas operam no país, com projetos anunciados que somam US$ 11 bilhões, mais da metade voltados à manufatura, segundo a autoridade de investimento queniana. Na Tanzânia, o investimento chinês desde 2017 chegou a US$ 12,5 bilhões, cerca de dois terços na indústria, incluindo fábricas de cerâmica, vidro e aço.

O chefe da autoridade de investimento tanzaniana, Gilead Teri, disse que o capital chinês criou cerca de 150 mil empregos industriais no país, atraído por mão de obra barata, recursos abundantes e acesso a mercados ocidentais.

O que a região ainda não produz

A África Oriental importa a maior parte dos bens manufaturados que consome, o que abre espaço para fornecedores externos. A agricultura, embora empregue cerca de dois terços da população economicamente ativa do continente, ocupa apenas 6% da área territorial e depende de sistemas de cultivo pouco mecanizados.

A declaração queniana reconhece que o continente exporta algodão e importa roupas, exporta couro e importa sapatos, exporta minerais e importa máquinas. Mukhwana classificou esse modelo como insustentável e defendeu sua mudança imediata.

O próximo passo depende de o projeto da refinaria avançar e de o governo queniano converter o investimento âncora em um programa deliberado de diversificação industrial, conectando-o a planos de transporte, agricultura e zonas industriais já existentes.

Por que importa para o Brasil

A ausência de capacidade industrial na África Oriental, tema central do plano queniano, abre espaço para exportações brasileiras de manufaturados e commodities. O Brasil, como fornecedor de bens industrializados e agrícolas, pode ganhar mercado em uma região que busca diversificar sua base produtiva. A expansão da demanda por insumos, máquinas e alimentos no leste africano é um canal concreto de impacto para exportadores brasileiros.

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