Brasil pode liderar minerais críticos, mas precisa de projetos

Diretora da S&P Global diz que Brasil reúne recursos e energia renovável para liderar minerais críticos, mas precisa transformar jazidas em projetos.

Vetor Geopolítico3 min de leituraComércio

O Brasil tem condições de disputar posição de destaque nas cadeias globais de minerais críticos, mas só se conseguir converter riqueza mineral em projetos produtivos e integrados à indústria antes que a janela se feche. A avaliação foi feita por Patricia Bordon Sarac Barreto, diretora associada de Análises de Curto Prazo de Minerais Críticos na S&P Global, em palestra no XI Encontro de Executivos do Setor Mineral, em São Paulo, no dia 19 de outubro. O tema importa porque define quem captura investimento e agrega valor na próxima década.

Governos e empresas mudaram o olhar sobre o setor

Para a diretora, o que está em transformação não é apenas o equilíbrio entre oferta e demanda, mas a atenção que governos e empresas passaram a dedicar a esses insumos e o papel que lhes atribuem na economia como um todo. A disputa global pelo controle dessas cadeias redesenha fluxos de investimento, políticas industriais e estratégias de segurança econômica das principais potências.

Nesse cenário, o Brasil aparece entre os países com maior potencial de ampliar sua fatia no mercado internacional. O obstáculo apontado não é a falta de geologia, e sim a etapa seguinte: transformar jazidas em projetos competitivos, produtivos e conectados às cadeias industriais que consomem esses minerais.

O mercado financeiro já precificou a corrida

Desde o início de 2025, o índice S&P 500 acumulou valorização de cerca de 39%, enquanto as ações de empresas de energia avançaram aproximadamente 49%. No mesmo período, o índice de metais e mineração cresceu 134%, desempenho quase quatro vezes superior ao do mercado mais amplo.

Segundo a análise apresentada no encontro, esse movimento ganhou força com a política tarifária dos Estados Unidos e com as respostas comerciais da China, que alteraram os fluxos internacionais de mercadorias e intensificaram a busca por fontes alternativas de fornecimento. A leitura é que a segurança no acesso aos minerais virou variável estratégica para setores industriais inteiros.

A complexidade tecnológica puxa a demanda

A pressão também vem da sofisticação dos produtos. O primeiro iPhone, lançado em 2007, usava cerca de 45 materiais; os modelos atuais dependem de aproximadamente 75 elementos, com cadeias produtivas espalhadas por vários países.

A expectativa da S&P Global é de expansão sem precedentes da infraestrutura física e digital na próxima década, impulsionada pela transição energética, pela inteligência artificial, pelos centros de processamento de dados e pela eletrificação da economia. Isso amplia a demanda por cobre, lítio, grafite e terras raras.

O cobre é necessário em grandes volumes para redes elétricas e geração de energia. Já as terras raras aparecem em quantidades pequenas, mas podem virar gargalo: um veículo elétrico usa menos de dois quilos de ímãs desses materiais, e restrições de oferta podem comprometer a produção de toda a indústria automobilística.

O prazo curto para sair do discurso

A mensagem central é que o posicionamento estratégico do país precisa, nas palavras da diretora, “avançar no presente para liderar no futuro”. O risco é o de sempre: o Brasil reconhece seu potencial, mas a velocidade dos investimentos nos setores que consomem minerais não acompanha a urgência da disputa.

Para o país, o próximo passo é claro e difícil ao mesmo tempo — sair do anúncio de potencial mineral para a licença, o financiamento e a planta industrial. É essa etapa que separa um fornecedor de minério bruto de um participante relevante das cadeias globais.

Por que importa para o Brasil

A corrida por minerais críticos mexe diretamente com o comércio Brasil-China e com a atração de investimento industrial para o país. Se o Brasil transformar jazidas em projetos competitivos, pode ganhar espaço como fornecedor alternativo num mercado em que os EUA impõem tarifas e a China reage redirecionando compras. Se ficar apenas na exportação de minério bruto, perde a chance de agregar valor e de entrar nas cadeias de cobre, lítio, grafite e terras raras que a transição energética e a inteligência artificial vão demandar. O canal de impacto passa por investimento, exportação e política industrial.

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