Desmatamento na Amazônia cai 42% e atinge menor nível desde 1988
Desmatamento na Amazônia cai 42% e chega a 3.335 km² no período até julho, o menor nível desde 1988; Cerrado recua 24% e também bate recorde.
O desmatamento na Amazônia brasileira caiu cerca de 42% no período de 12 meses encerrado em julho, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgados em 16 de outubro. Foram destruídos 3.335 quilômetros quadrados de floresta entre agosto de 2025 e julho de 2026, o menor patamar já registrado desde o início da série histórica, em 1988. O número importa porque sinaliza, pela primeira vez em quase quatro décadas de monitoramento, uma taxa anual abaixo dos 4 mil quilômetros quadrados.
Como o dado é medido e o que ele compara
O levantamento é feito pelo programa de satélites PRODES, que fotografa a perda de cobertura florestal uma vez por ano. A janela de agosto a julho é usada porque a menor presença de nuvens no meio do ano permite imagens mais nítidas das áreas desmatadas.
O recorde anterior de menor desmate havia sido registrado em 2011-2012, quando 4.571 quilômetros quadrados foram derrubados. Nos anos 1990, a perda anual chegou a quase 30 mil quilômetros quadrados, patamar várias vezes superior ao atual. Segundo os dados apresentados, o desmatamento cai ano a ano desde 2022 e acumula recuo de 71,2% em quatro anos.
Cerrado recua 24% e também marca recorde
A savana que fica ao sul da Amazônia registrou queda de aproximadamente 24% no mesmo período, para cerca de 5.517 quilômetros quadrados. É o menor valor da série do Inpe para o bioma, que começa em 2001.
O dado do Cerrado tem peso próprio: o bioma concentra parte importante da expansão agrícola do país e, nos últimos anos, vinha perdendo vegetação nativa em ritmo superior ao da floresta amazônica em algumas medições. A queda simultânea nos dois biomas reforça a leitura de que a curva de supressão de vegetação perdeu tração neste ciclo.
Fiscalização, meta de 2030 e a leitura do governo
O resultado é associado, no debate público, a mais monitoramento e a punições mais duras contra crimes ambientais. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que assumiu em 2023, trabalha com a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2030.
“É uma queda absolutamente estratosférica”, afirmou o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, em entrevista coletiva em Brasília. Para o secretário-executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, os números mostram que “com vontade política, é possível frear o desmatamento e as emissões”.
Ainda assim, milhares de quilômetros quadrados seguem sendo derrubados a cada ano. Zerar a perda florestal até o fim da década exige manter a fiscalização em áreas sob pressão e lidar com a parte da supressão que escapa ao controle do Estado.
O dado entra na campanha e no radar externo
Os números foram divulgados a nove dias do segundo turno da eleição presidencial, marcado para 25 de outubro. Lula disputa com o senador Flávio Bolsonaro, que teve desempenho acima do esperado no primeiro turno e aparece em pesquisas em situação de empate técnico.
No programa de governo, o senador promete reforçar a fiscalização ambiental na Amazônia, priorizando áreas sob maior pressão de desmatamento e de queimadas, e concentrar a ação policial no crime organizado em vez de trabalhadores da extração e pequenos produtores. Ele também se comprometeu a encerrar o desmatamento ilegal até 2029.
Para além da disputa eleitoral, o dado deve ser acompanhado por governos e compradores estrangeiros, que monitoram a origem de commodities e o cumprimento de compromissos climáticos assumidos pelo Brasil.
Por que importa para o Brasil
Um dado como esse pesa na imagem externa do Brasil em um momento em que regras ambientais condicionam acesso a mercados e a financiamento internacional. A queda do desmatamento também reduz emissões de gases de efeito estufa, o que fortalece a posição brasileira em negociações climáticas. Para a economia doméstica, a preservação da floresta está ligada ao regime de chuvas que sustenta a agricultura e a geração de energia hidrelétrica. Já a pressão sobre o Cerrado importa diretamente à produção de grãos e à pecuária no Centro-Oeste.
