Brasil mapeia minerais críticos no Atlântico Sul e amplia fronteira

Expedição do Serviço Geológico do Brasil investiga potencial mineral em águas internacionais do Atlântico Sul, perto do arquipélago de São Pedro e São Paulo.

Vetor Geopolítico3 min de leituraAtlântico Sul

O Brasil ampliou a pesquisa sobre o potencial mineral do leito do Oceano Atlântico. Pesquisadores do Serviço Geológico do Brasil (SGB) concluíram no início de outubro uma expedição de 29 dias na região da Cordilheira Mesoatlântica, em águas internacionais próximas aos limites do território nacional, ao norte do arquipélago de São Pedro e São Paulo. O trabalho investigou três áreas com potencial de atividade hidrotermal e formação de depósitos minerais.

O que a expedição encontrou

Durante a campanha, realizada entre 9 de setembro e 8 de outubro, a equipe fez levantamentos geofísicos e oceanográficos e coletou amostras de água e de sedimentos do fundo do mar. Dados preliminares identificaram anomalias de partículas suspensas na água que podem indicar atividade hidrotermal. O material coletado será analisado para aprofundar o conhecimento geológico e biológico das áreas e orientar novas campanhas.

A pesquisa integra o projeto Procordilheira, voltado à prospecção de sulfetos polimetálicos maciços na Cordilheira Mesoatlântica, vinculado ao Programa de Prospecção e Exploração de Recursos Minerais na Área Internacional do Atlântico Sul e Equatorial (PROAREA). O objetivo é identificar e avaliar o potencial mineral com vistas à futura explotação em área internacional.

Quem participa e qual é o próximo passo

Os trabalhos foram feitos a bordo do navio hidroceanográfico Vital de Oliveira, sob acordo de cooperação entre a Marinha do Brasil, o Serviço Geológico do Brasil, a Petrobras e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A análise das amostras coletadas é a etapa seguinte e deve indicar se as áreas merecem campanhas adicionais.

O tema também ganhou espaço na agenda de financiamento. O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, afirmou que a instituição pretende unir esforços com a Vale e com a Petrobras para avançar na pesquisa em alto-mar e identificar o potencial da mineração marinha.

A disputa global pelo leito oceânico

O movimento brasileiro ocorre num momento de aceleração da corrida internacional por minerais do fundo do mar. Nos Estados Unidos, a associação industrial National Ocean Industries Association lançou uma iniciativa para promover o potencial dos recursos minerais marinhos e reforçar cadeias de suprimento domésticas de minerais críticos como níquel, cobalto, cobre, manganês e terras raras. A entidade defende o aproveitamento da experiência da indústria offshore de petróleo e gás em robótica submarina, veículos autônomos e levantamentos geofísicos.

No Pacífico, uma análise mostrou que empresas já pediram ou obtiveram dos Estados Unidos direitos sobre áreas do leito marinho na Zona Clarion-Clipperton equivalentes a cerca de metade da área já designada para mineração pela comunidade internacional. A maioria dos pedidos ocorreu no último ano e meio, e alguns buscam não apenas exploração, mas licenças comerciais de recuperação — que, se aprovadas pela agência oceânica americana, permitiriam extrair e vender os minerais.

Esses pedidos se sobrepõem a áreas já contratadas pela Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), ligada à ONU, e a zonas reservadas para países em desenvolvimento. A situação levanta questões sobre quem tem autoridade sobre o leito em águas internacionais, consideradas patrimônio comum. Quarenta e seis países defendem cautela com a mineração em alto-mar diante dos riscos ao ambiente marinho e da ausência de regras internacionais consolidadas. A mineração comercial em escala ainda não começou em nenhum lugar do mundo.

Por que importa para o Brasil

O avanço da pesquisa brasileira no Atlântico Sul interessa diretamente ao país porque minerais como níquel, cobalto e cobre alimentam a transição energética e a indústria de defesa, setores em que o Brasil quer reduzir dependência externa. Ao mesmo tempo, a corrida internacional por mineração em alto-mar, liderada hoje pelos Estados Unidos, pressiona o regime multilateral que regula esse tipo de exploração — e uma disputa por autoridade sobre o leito oceânico pode afetar a margem de manobra brasileira na sua própria fronteira marítima.

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