Comércio Brasil-China bate recorde de US$ 143 bilhões em 2026
Corrente comercial entre Brasil e China chega a US$ 143 bilhões até setembro de 2026, com superávit de US$ 26,1 bilhões e soja e petróleo na liderança.
A corrente de comércio entre Brasil e China somou US$ 143 bilhões entre janeiro e setembro de 2026, novo recorde para o período. As vendas brasileiras ao mercado chinês chegaram a US$ 84,7 bilhões, alta de 12%, enquanto as importações de produtos chineses alcançaram US$ 58,6 bilhões, avanço de 9,9%. O resultado deixou superávit de US$ 26,1 bilhões para o Brasil — o equivalente a 42% de todo o saldo comercial do país com o mundo.
Os números consolidam uma relação em que a China responde por 29,7% das exportações e 26,4% das importações brasileiras. O dado importa porque mostra que o desempenho da balança comercial brasileira, e por consequência parte do fluxo de dólares que ajuda a estabilizar o câmbio, segue atrelado à demanda chinesa.
Soja e petróleo sustentam a pauta
A soja permaneceu como principal produto vendido ao mercado chinês, com US$ 30 bilhões em embarques e crescimento de 3,6%. O país asiático absorveu 70% de toda a soja exportada pelo Brasil, o que reforça a concentração do agronegócio nacional em um único comprador.
O petróleo ganhou peso: as vendas avançaram 49%, para US$ 21,8 bilhões, e representaram metade de todo o óleo bruto exportado pelo país. A combinação de commodities agrícolas e energéticas explica a maior parte do superávit bilateral.
Cota cheia trava a carne bovina
Nem todos os setores acompanharam o ritmo. Após o Brasil atingir o limite da cota chinesa para carne bovina, as exportações de setembro caíram para US$ 68,3 milhões, valor mais de 15 vezes inferior ao registrado um ano antes.
Os embarques que excedem a cota enfrentam sobretaxa de 55%, além da tarifa regular de 12%. O mecanismo funciona como um freio de preço: acima do volume permitido, o produto brasileiro perde competitividade e o espaço é disputado por fornecedores de outros países. É um alerta para um setor que vinha ganhando mercado na China.
Novos produtos e minerais críticos
A abertura do mercado chinês criou espaço para itens menos tradicionais da pauta. As exportações de DDG, insumo usado na alimentação animal, somaram US$ 111,3 milhões, e as de sorgo, US$ 170 milhões. A China concentrou, respectivamente, 53% e 95% dessas vendas brasileiras.
Outro destaque foi o espodumênio, mineral rico em lítio, cujas vendas à China cresceram no período. No mesmo movimento, o governo federal estruturou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, com secretaria-executiva no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, voltado a aprovar projetos considerados estratégicos.
Do comércio ao investimento
A relação deixou de ser apenas de compra e venda. A fábrica da BYD em Camaçari, na região metropolitana de Salvador, foi inaugurada em outubro de 2025 e, em menos de um ano, montou mais de 100 mil veículos a partir de kits importados. A produção com conteúdo local está prevista para começar no fim de 2026.
A unidade já reúne 7.618 funcionários diretos, dos quais 6% (457) são estrangeiros, majoritariamente chineses, segundo a empresa. A presença de trabalhadores asiáticos levou a Polícia Federal a registrar 2.310 vistos de residência em Camaçari e na vizinha Lauro de Freitas desde 2024, a maioria temporários.
O movimento se repete no setor de baterias. Empresas chinesas como CATL, BYD, Gotion, CALB e Sungrow estão montando uma cadeia de suprimentos global fora da China, com US$ 12 bilhões anunciados em 14 acordos neste ano, segundo dados de mercado. Para o Brasil, o próximo passo é converter a troca comercial em produção e tecnologia locais.
Por que importa para o Brasil
A China é o destino de quase 30% das exportações brasileiras, e o saldo com o país responde por 42% de todo o superávit comercial do Brasil. Isso significa que o emprego e a arrecadação de setores como soja, petróleo, carne e minérios dependem, em boa medida, da demanda chinesa. Ao mesmo tempo, a compra crescente de veículos e equipamentos chineses pressiona a indústria nacional a se reposicionar — e a instalação de fábricas como a da BYD em Camaçari mostra que o investimento chinês também chega em forma de emprego local.
