El Niño deve atingir pico no fim de 2026 e pressionar grãos

Fenômeno climático deve chegar ao auge no fim de 2026, com impacto maior sobre a produção de alimentos no início de 2027 e risco para safras globais

Vetor Geopolítico3 min de leituraComércio

O atual El Niño deve atingir seu pico no fim de 2026, mas os efeitos mais severos sobre a produção de alimentos tendem a aparecer apenas no início de 2027, quando o fenômeno pode desorganizar o regime de chuvas e comprometer plantios e colheitas em diferentes regiões do planeta. O alerta vem de meteorologistas e especialistas em cadeia de suprimentos que acompanham o episódio, descrito como um possível “super El Niño”.

Pico previsto para o fim de 2026

O El Niño é provocado pelo aquecimento das águas superficiais do Pacífico central e leste e costuma provocar secas e chuvas irregulares em várias partes do mundo. Este episódio tem sido classificado por analistas do setor alimentício como um dos mais intensos, com previsões de que possa ser o maior desde o século 19.

Segundo Liz Bentley, executiva-chefe da Royal Meteorological Society, o pico deve ocorrer no fim de 2026. Os piores efeitos sobre a produção de alimentos, porém, devem se concentrar no começo de 2027, porque o impacto do fenômeno sobre a oferta e os preços leva meses para se materializar.

“O El Niño acrescenta uma camada extra de ruptura”, disse Bentley, ao comentar que o fenômeno pode empurrar sistemas agrícolas vulneráveis além de seus limites, sobretudo em regiões que já enfrentam escassez de água e solos degradados.

Seca já afeta algumas regiões

Alguns efeitos já são visíveis, segundo a especialista. Seca e temperaturas acima do normal vêm afetando a agricultura em partes da América Central, enquanto o leste da África registra escassez de chuvas.

O El Niño também eleva o risco de seca no sul da África durante a principal estação de cultivo, o que pode comprometer a safra de milho em 2027. A produção de arroz no Sudeste Asiático e a de trigo na Austrália também podem ser afetadas, embora os impactos variem conforme a região.

Mato Grosso antecipa vendas

Enquanto o risco climático global cresce, produtores brasileiros já se movimentam. Fazendeiros de Mato Grosso venderam antecipadamente 43,7% da safra de soja 2026/27, contra 36,1% no mesmo período do ciclo anterior, segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). O avanço foi de 4,6 pontos percentuais em setembro e representa o ritmo mais rápido desde a temporada 2020/21.

Para o milho, o quadro é diferente: 19,7% da produção esperada de 2026/27 já foi contratada, alta de 3,8 pontos percentuais no mês, com preço médio negociado em setembro de R$ 48,69 por saca. O algodão aparece com 43,3% da produção comprometida.

As vendas de milho ficam atrás das de soja e algodão porque dependem mais da melhora das condições de investimento e de sinais mais firmes de demanda. No caso da soja, os produtores aproveitaram a valorização dos preços ao longo de setembro para travar negócios.

Resiliência nas compras internacionais

Para as empresas que compram grãos, o aspecto positivo é que o fenômeno é previsível. “Sabemos que ele está vindo”, afirmou Simon Geale, vice-presidente executivo de compras da consultoria Proxima, acrescentando que essa previsibilidade permite embutir resiliência nas cadeias de suprimento.

A recomendação é mapear desde já os efeitos mais prováveis do El Niño e entender como eles chegam à produção e ao abastecimento. Uma das alternativas apontadas é a diversificação de fornecedores, que reduz a dependência de uma única origem e ajuda a amortecer eventuais choques de oferta e de custo.

Por que importa para o Brasil

O Brasil entra nessa equação pelo lado da oferta: se secas e chuvas irregulares reduzirem colheitas em outras regiões, a demanda por grãos brasileiros tende a crescer e os preços internacionais podem subir. Os dados de Mato Grosso mostram que produtores já se anteciparam e travaram vendas de soja em ritmo acelerado, o que os protege de oscilações, mas também limita o ganho caso a cotação dispare. Para o consumidor e para a indústria que usa grãos como insumo, o canal de transmissão é o custo da ração e das matérias-primas.

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