Real despenca com vitória de Lula e pressiona açúcar, café e soja
A vitória de Lula derruba o real e pressiona as commodities agrícolas; soja, café e açúcar caem no mercado internacional.
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno derrubou o real e pressionou as cotações internacionais de commodities agrícolas nesta segunda-feira. O contrato de derivativos de câmbio negociado na CME indicava o real a 5,60 por dólar, o que representa uma queda de 12% frente ao fechamento de sexta-feira. O movimento ocorre antes mesmo da abertura do mercado local, às 8h de Nova York, e já afeta os preços de soja, café e açúcar, produtos em que o Brasil é o maior exportador mundial. O real despenca e vira o principal vetor de reprecificação do mercado agrícola global.
Por que a vitória de Lula derruba o real
Lula conquistou um quarto mandato ao derrotar Flávio Bolsonaro em um resultado que contrariou expectativas de investidores que apostavam no rival para conter o déficit fiscal do país. A reação do mercado foi imediata: os contratos de câmbio sinalizam desvalorização forte da moeda brasileira, e os mercados locais se encaminhavam para uma sessão de perdas quando a negociação abrisse.
A leitura dos investidores é que um real mais fraco favorece as exportações, pois os produtores recebem mais moeda local pelas safras embarcadas. Como o Brasil lidera as vendas externas de açúcar, café e soja, esse incentivo à exportação tende a ampliar a oferta desses produtos no mercado internacional, o que pressiona os preços para baixo.
Soja, café e açúcar caem no mercado internacional
O contrato de soja mais negociado na Bolsa de Chicago recuou até 1,7%, atingindo o menor nível desde o fim de agosto. O açúcar caiu até 3,6%, a maior queda em mais de um mês, enquanto o café arábica recuou até 3,3% e o robusta atingiu o menor patamar em dois anos. Os óleos vegetais acompanharam: o óleo de soja caiu até 1,2% em Chicago e o óleo de palma recuou até 1,1% em Kuala Lumpur.
Para o mercado, a reação é técnica e antecipa o câmbio. Na avaliação de Arnaud Lorioz, executivo-chefe da corretora parisiense Deepcore, trata-se de uma “simples reação técnica” à expectativa de movimento cambial, e o mercado sinaliza que o real deve favorecer mais exportações dos produtores de açúcar brasileiros.
China e a fatia brasileira no mercado de soja
O novo governo Lula deve manter uma abordagem pragmática em relação à China, o que pode consolidar ainda mais a presença brasileira como principal fornecedor de soja ao país asiático. Nos primeiros nove meses do ano, o Brasil respondeu por quase 80% das importações chinesas da oleaginosa, apesar do acordo comercial de Pequim com os Estados Unidos, seu segundo fornecedor.
O avanço brasileiro também se apoia em infraestrutura: a China tem ampliado investimentos em portos sul-americanos, incluindo terminais em Santos construídos pela trading de grãos Cofco. Segundo Joe Davis, diretor de vendas de commodities da Futures International, Lula é favorável às exportações de soja para a China, o que é baixista para a soja americana caso o Brasil consiga atender mais da demanda chinesa.
Bolsa e empresas brasileiras sentem o choque
O impacto não ficou restrito às commodities. O ETF iShares MSCI Brazil caiu quase 20% nas negociações iniciais, a Petrobras recuou 16% e o MercadoLibre, que tem o Brasil como maior mercado, perdeu 7%. A reação contrasta com o rali após o primeiro turno, quando o mesmo ETF subiu 12,5% em 5 de outubro, no maior nível desde fevereiro de 2020, e ações como XP dispararam 39,1%.
No plano político, a equipe de Flávio Bolsonaro pediu aos tribunais, na noite de domingo, a anulação do segundo turno por supostas irregularidades na votação. O resultado também recoloca em questão a relação do Brasil com os Estados Unidos, marcada por diferenças ideológicas com o presidente Donald Trump, que em julho aplicou tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.
Por que importa para o Brasil
Para o Brasil, o câmbio mais fraco tende a tornar as exportações de soja, café e açúcar mais competitivas, o que pode ampliar a receita dos exportadores em reais. Ao mesmo tempo, um real desvalorizado encarece produtos importados e pode pressionar a inflação doméstica. A queda das cotações internacionais, por sua vez, reduz o preço recebido por tonelada embarcada, criando um efeito misto sobre o setor agroexportador.
