Tarifas dos EUA pressionam agro chileno e acendem alerta no Cone Sul

Setor agrícola do Chile perde dinamismo com custos altos e incerteza comercial ligada às tarifas americanas, alerta entidade do país

Vetor Geopolítico3 min de leituraComércio

O setor agrícola do Chile perdeu dinamismo em 2026 e acende um sinal de alerta sobre o risco de tarifas e incertezas comerciais na região. Em encontro realizado em Santiago, o presidente da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), Antonio Walker, afirmou que a agricultura cresceu acima da economia nacional em 2024 e 2025, mas que neste ano os sinais de desaceleração são evidentes. O evento contou com a presença do presidente José Antonio Kast e dos ministros da Fazenda, Jorge Quiroz, e da Agricultura, Jaime Campos.

O diagnóstico é de desempenho desigual: nozes mantêm preços razoáveis, carnes se recuperaram e o setor lácteo segue estável, enquanto vinho, cultivos tradicionais, beterraba açucareira, silvicultura e algumas frutas continuam em dificuldade. A isso se somam custos maiores de energia, fertilizantes, defensivos agrícolas e logística, além da incerteza internacional.

Custo de produção e concorrência regional

Walker afirmou que parte desses fatores está fora do controle do país, mas que há espaço para agir sobre outros. A principal cobrança foi por mais investimento em infraestrutura de irrigação e por uma política hídrica capaz de ampliar a área cultivada.

Como referência, ele citou o Peru, visitado na semana anterior ao lado do ministro da Economia e Mineração, Daniel Mas. Segundo o dirigente, o país vizinho investiu US$ 24 bilhões em parceria público-privada e planeja irrigar 2,6 milhões de hectares, enquanto o Chile seguiria nos mesmos 900 mil hectares se não reagir.

O argumento é que a coordenação entre setor público e privado permite viabilizar grandes projetos hídricos e ampliar a fronteira agrícola, algo que o Chile não teria conseguido avançar no mesmo ritmo.

O peso das tarifas americanas

O encontro ocorre em um momento em que o comércio agrícola regional sente os efeitos das tarifas dos Estados Unidos. A cadeia automotiva americana, por exemplo, já contabiliza bilhões de dólares em custos tarifários, sinal de que as barreiras comerciais de Washington atingem diversos setores da economia global.

Para os produtores chilenos, a combinação de custos internos mais altos com um ambiente externo mais incerto reduz a competitividade das exportações. O risco se espalha pela região, já que os países do Cone Sul disputam mercados semelhantes, especialmente na Ásia.

Próximo passo e o que observar

A SNA pressiona o governo de Kast por decisões rápidas em irrigação e política hídrica, defendendo que o potencial produtivo do país depende disso. O ministro da Agricultura, Jaime Campos, foi elogiado no evento pelo trabalho de promoção de projetos de irrigação.

O desfecho dessa agenda deve influenciar a capacidade chilena de manter espaço em mercados como o asiático, onde a concorrência com Brasil e Argentina segue acirrada. Um Chile menos competitivo tende a abrir flancos para os exportadores vizinhos, mas também reforça o alerta sobre o avanço de barreiras tarifárias e o custo crescente de produzir alimentos na América Latina.

Por que importa para o Brasil

O alerta serve como termômetro para o Brasil, que disputa com o Chile e outros vizinhos fatias do mercado americano e asiático de alimentos. Se as tarifas de Washington encarecerem produtos agrícolas da região, exportadores brasileiros podem ganhar espaço em alguns itens, mas também enfrentam o risco de represálias e de um ambiente comercial mais fechado. Além disso, frutas e vinhos chilenos afetados podem redirecionar parte da oferta para o mercado brasileiro, mexendo com preços e concorrência interna.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *